sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Outro Salmo 121

Tenho tido os meus montes
e à sua volta anéis
de nuvens, circulando
com átomos tristes de água

Os meus olhos procurariam
nada, um mergulho no escuro
mas um pé em falso
romperia a ténue película
que me sustém a vida

Nos meus montes peço socorro
de onde virá a mina de oiro
a fonte dos cristais
da pura água
mas um salto no escuro
e seria o fim

O meu socorro vem do Senhor
que fez de céu e de terra
esta distância
que trazem os meus olhos.

31/12/2010

Inédito de J.T.Parreira

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

CONTAGEM

“Abraão lança os olhos

ao lume longínquo”

J. T. Parreira, “Contagem de estrelas”


Dissera Deus a Abraão

o pai de miríades de nações,

que contasse as estrelas

e contaria os pés

dos filhos

e dos filhos dos filhos


essas seriam as contas

amplíssimas das areias

mais do que as águas do mar

ao retirarem-se

diante das marés

dos filhos, das nações amplíssimas

do seu pai, avançando

sobre a palma da terra

e as costas dos oceanos

conquistadores dos continentes e ilhas


Abraão que contasse

que lançasse os olhos

na demora dos lumes

do céu


E Abraão contou


Abraão contou

os intervalos entre elas

Abraão contou os pêlos

da barba branca

e os intervalos

entre os cabelos

que lhe faltavam


24/12/10



MEU CAVALEIRO EM BATALHA

Salmo 18

Não Te conhecia Cavaleiro
Guerreiro em Batalha
Resfolegando vingança
Em Tuas narinas acesas

Nunca Te imaginei montando
Um querubim e voando
Com espada em punho
E decisão de vitória

É me custoso entender
Que tanto empenho
Fosse por mim criatura
Das menores em Teu panteão

Não suportaste ver-me
Estrado dos pés de pessoas
Que se queriam pôr maior
Do que Tu és

E desceste de Teus céus
E Te puseste em pé
Deixando Teu trono
Mas não Tua majestade
E afugentaste aqueles
Que me queriam afugentar

É me custoso entender
Que tanto empenho
Fosse por mim criatura
Das menores em Teu panteão

Foste (És) para mim Rocha
De proteção Cidade
De abrigo Escudo
Força a mim desvalido
Por outros tido desprotegido

Quando clamei vieste
Em meu socorro
Trazendo alento
Se fazendo meu amparo

E é me custoso entender
Que tanto empenho
Fosse por mim criatura
Das menores em Teu panteão

Saíste em conquista
Conquistaste meus inimigos
E circunstâncias adversas
E os destruíste

Saíste em conquista
Conquistaste a mim
Conquistaste meu amor

Eu Te amo Deus
Da minha força

Prostrado a Teus pés
E grato a Ti digo
Eu Te amo, Deus da minha
Força!

Só um pedido mais
Por favor, ouça-me:
Que eu abra minha
Boca para falar de Ti
De Tuas grandezas
Enquanto eu viver

Como um filho
Sentindo-se protegido
Digo a Ti: Eu Te amo!



Luiz Flor dos Santos (poema do projeto POEMAS DOS SALMOS para publicação)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

OS LÍRIOS


“Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles.”

Evangelho de Mateus 5,28-29 (versão A Bíblia para todos)


Falo-vos da corola

dos lírios

como as fímbrias do manto

do rei

assim foram vestidos


que rei alguma vez

fia o seu próprio manto

ou precisa de apressar o olhar

para o interior de todas as montras

nos centros comerciais

em busca de trajo

em busca de um vestido de noite?

os reis vestem constante

trajo de gala

todos os seus gestos são

liturgia de fausto e cerimónia


e os lírios,

alguma vez soubestes

que precisem de estugar o passo

de se precipitar na descida

para o metro não vão os pés diferir-lhes

as horas, ou sejam devorados nos magotes

das gentes?


alguma vez ouvistes

que tecem a malha das pétalas abertas

ou a trama do seu destino

os lírios?

não elaboram o tempo

a procurar terra bastante

para as raízes


diante deles

empalidece o ouro

do manto de Salomão


mostro-vos os lírios,

que vos tocam com cores limpas

as mãos

são um pequeno sol

na largura dos campos

que vos pudesse amanhecer

o coração




Rui Miguel Duarte

9/12/10


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Um poema de Mário Barreto França (a propósito do Dia da Bíblia)


QUANDO EU LEIO O TEU LIVRO...


QUANDO EU LEIO, Senhor, o teu Livro Sagrado
Na inspiração de Jó, Isaías, Amós,
Sinto que vivo estás no texto consultado
E escuto a tua voz!...


Quando perlustro ansioso o Novo Testamento
E leio as preleções sublimes de Jesus,
Eu noto que se aclara o meu entendimento
Por tua excelsa luz...


E essa voz sempre amiga e terna me convence
Das faltas, da justiça e do juízo final,
Fazendo-me saber que só a Ti pertence
A vida universal.


Quando eu leio, Senhor, teu código divino,
Que exalta a fé e o amor de Paulo ou de Davi,
Eu sigo sem parar meu plácido destino,
Com o pensamento em Ti!...


E peço humildemente o teu auxílio forte
Para vencer o mal, para fazer o bem,
Levando a quem soluça entre as sombras da morte
A esperança do Além!...


Pois revelaste ao mundo a tua Maravilha
Através de lições desse livro sem par,
Em que a Ciência, as Leis, as Artes, tudo brilha,
Para Te consagrar...


Quando eu leio, Senhor, teus santos estatutos,
Desde a primeira frase à última oração,
Sinto que estás em mim, em todos os minutos
De minha adoração!...


Ensina-me, portanto, a dizer a verdade
Que canta no teu Livro a aleluia do Amor,
Para que o mundo veja a tua santidade
- Tua glória, Senhor!


No livro O Louvor dos Humildes (1953)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

... E também vi que é dom de Deus que possa o homem comer, beber e desfrutar o bem de todo o seu trabalho (Eclesiastes 3.13).

As segundas-feiras geralmente pra mm é dia de descanso. Fico geralmente alegre poder não fazer nada de urgente. Mas quando me demoro demais sem fazer nada geralmente fico triste e passo logo a querer as terças-feiras... Entretanto prefiro que por enquanto seja assim, pois não há melhor sabor do que poder escolher fazer ou não fazer. Hoje é segunda-feira. Será que deveria ter escrito essas linhas? Tolas pra você, certamente. Como estava sem fazer nada, escolhi que sim. Exercer o delicioso poder de escolher.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

PAULO DE TARSO NA PRISÃO

“… A golpes de paixão, tento passar…”

Miguel Torga, “Emparademento” (in Orfeu Rebelde)


Emparedado tentei

já desfazer as cadeias

que me puseram no degredo

as mãos e os pés

estão unidos com os ferros

e transmitem à boca o pedido

de um grito

que a noite eleve

para lá das grades

ao terceiro céu, e que

me traga a frescura do consolo


pois sei que as cadeias não são negociáveis

para os que seguem Cristo,

nem tão pouco feitas perpétuas

ou elas cedem, ou o muro cede

doem afinal ainda menos

do que o desespero

de se terem incrustado

nas mãos e nos pés,

do que um destino tumular


das cadeias do meu avesso,

que me esmurra

como um doido varrido e que

a golpes de paixão, tento passar


é aí, no recesso

que mais emparedado estou


por durante um minuto

ter desaprendido

de cantar


16/11/10

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Alegria Já Está

A dor é verdade tem sido a marca mais forte de nosso mundo.
A alegria está no meio da dor.
E o poeta canta a dor.
O historiador cataloga entre alguma alegria
Longos períodos de dor.

Há alegria sim em nosso mundo, mas o
Muito do que era bem transformamos em dor.
Bem falou o pensador quando disse em
Suas meditações:

Eis o que tão somente achei: Que Deus fez
O homem perfeito, mas este se meteu em grandes
Astúcias.

Nos movemos entre cardos e espinhos
Frutos de nossas escolhas ilusórias

De onde nos viria uma dose cavalar de alegria?
Virá do futuro, mas já começa aqui mesmo
No presente.

Sofre o homem por quê?

Busca-se a esperança debaixo do sol
E o alcance desta não é mais do que um tiro de
Pedra dado por uma criança singela nas
Primeiras primaveras da vida

Vou de novo concordar com o sábio do livro dos
Salmos para muitos saber antiquado:
Elevo meus olhos para os montes, de onde me virá
O socorro? O meu socorro vem do Senhor que fez
O céu e a terra.

Do Senhor que me guarda
Do Senhor que é a minha sombra de proteção
Do Senhor que não permite a meus pés vacilar
Do Senhor que não dormita ao me guardar

O poeta já pode cantar a alegria
O profeta há muito mostrou o caminho da alegria
O poeta já pode cantar a alegria
O povo do poeta já pode cantar
Junto com poeta pode cantar.



Autoria: Luiz Flor dos Santos, pastor na Igreja Batista Fundamentalista Cristo é Vida.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Em memória de mim

Considerem este corpo
aqui vertido no pão, carne
que amanhã adornará a minha dor
No vinho considerem o brilho
do meu sangue
Façam-no antes que a cinza
apague o fogo da memória
e como migalha após migalha
este pão caia das mãos sujas
sob as mesas, e este vinho seja um dia
apenas vide ressequida.

Poema inédito de J.T.Parreira

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

AGOSTO


Prostro-me no pó e na cinza:
Ouço o uivo das ruínas,
As árias da Solidão...
Restaura o Farol
Que os vagalhões derrubaram, Senhor;
Contra o vil rugido das vagas
Que me assassinaram o sono
Ruja Teu Espírito

(agora lhe rogo como uma criança)
Envie brisa
Que crie colchões de ar
Sob mim
Para que eu largue os fardos e
flutue
Manifesta, peço-te
Um pingo do Céu
Aqui na ilha do que sou
Restaura as pontes
E cala o vulcão
Estanca o sangramento
Antes que
                 Antes que fim

Porque me deste um assassino por companheiro
Na estrada?
Para que eu aprenda a perdoar?

Tira a balança de minhas mãos, Senhor,
Que sou contumaz pecador
Ponha em minhas mãos
O amor
Teu amor
E todas as Tuas
Sementes

Sammis Reachers

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

As várias faces da (web) poesia - O uso da internet pelos novos poetas

                                                                        Poesia em gif animado de Marcelo Sahea

Leia excelente texto sobre a chamada webpoesia, escrito por Raquel Cozer em seu blog A Biblioteca de Raquel, no portal do Estadão.

Repercutida aqui no Bradante: http://bradante.blogspot.com/2010/11/as-varias-faces-da-web-poesia-o-uso-da.html

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Porque agora dói


quando a dor não poderá mais me tocar


eu vejo esta ilha, que é um continente, que é um universo -

ah!



como eu anseio pelo fim de todo o MAL - se a batalha que Ele nos propôs fosse outra, de lanças e espadas - AH! com que furor eu me lançaria! Mas como é difícil combater espiritualmente - como é difícil ser o que devo ser!



Ser um Pássaro Combatente - um pássaro tingido pelo azul do amor de Cristo, banhado no Seu SANGUE



- travar o comba-
te - travar heroi-
camente o combat
e -



e um dia - QUE QUAL CORCEL E DRAGÃO, qual flor e lâmina, poderosamente VEM -
aportar no local de descanso eterno - que eu seja como sou aqui, SENHOR - que eu seja o último -

que eu tenha asas, e reencontre meus amigos


 Há alguns anos em http://azulcaudal.blogspot.com

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Noli Me Tangere

Inédito de J.T.Parreira

Não me toques
que o meu corpo é agora inconsumível
nem o beijo dos anjos tocará meu rosto
deixa a tua mão
na fronteira do amor que se desprende
do meu corpo, a minha carne
agora é um cristal.
5/11/2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

da dor

NÃO SE PERCA,
DA DOR ARRANQUE BELEZA
DAS RICAS PALAVRAS QUE VERTE,
TRÊS LETRAS DE TÃO SOFRIMENTO
O CALDO ESPREMIDO DA DOCE PUREZA
BEBA DA SEIVA
NUTRE A PLANTA
ENXERTE 
AMARGO PARECE
MAS REMÉDIO É MOMENTO
PASSOU É ALÍVIO E APRENDE
AQUELE QUE VIVO SE ERGUE
NÃO AMIGO, NÃO SE PERCA
ERGA A CABEÇA
A FACE OFEREÇA
DA DOR NOVAMENTE VIRÁ A BELEZA
SÓ SABE QUEM FOI AO LIMITE
SÓ FICAM OS FORTES
QUE FRACOS DISSERAM
SOU FORTE SOU SÁBIO E ISSO ADMITE
SÓ NÃO ESTOU, RESTOU-ME O QUE DISSE
PALAVRAS QUE UM DIA
DA DOR ME MOLDOU
ESPREME, E A DOR NÃO RESISTE
DO AMARGO DO FEL, A ORDEM DO CÉU
QUE PRA TI ELA ENTREGA
É O MAIS DOCE MEL QUE EXISTE

Camilo Borges

Para o início de uma Ficção (pois o dia é de Finados a dor é grande eu estou sozinho e preciso Senhor, fugir para Aldebarã)



O Planeta Azul de Aldebarã... 34 andróides deram suas vidas quânticas para nos trazer até aqui... Alikdeai, a NAVE, sacrificou-se por nós – morreu nossa preceptora, a inteligência coletiva de nossa colônia. Deus, quem creria que algo assim seria possível, que até máquinas se sacrificariam – por amor a Ti?

A guerra contra o mal é vasta, mas eis-nos aqui, como Lafayette em Yorktown, como os 300 gigantes nas Termópilas, doze cães de carbono, doze portadores da Mensagem

       (essa história continuará um dia?)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Teólogo não...


Teólogo não cheira, discerne fragrâncias.

Teólogo não toca, é tocado (em diversos sentidos...)

Teólogo não respira, transpira doutrina.

Teólogo não tem depressão, tem opressão mesmo.

Teólogo não só admira a natureza, mas descreve a Criação.

Teólogo não elogia, mas louva e glorifica (a Deus).

Teólogo não tem reflexos, tem sonhos e visões.

Teólogo não facilita discussões, promove a comunhão. 

Teólogo não admite algo sem resposta: diz que é bíblico.

Teólogo não fala: prega e evangeliza.

Teólogo não pensa: medita.

Teólogo não toma susto: se escandaliza.

Teólogo não chora, se derrama.

Teólogo não espera retorno de chamadas, espera respostas de oração.

Teólogo não se apaixona, atende ao clamor da carne...

Teólogo não perde energia, renova as forças em Deus.

Teólogo não divide, multiplica os pães.

Teólogo não falece, sobe ao lar celestial.

Teólogo não beija, oscula.


Marco A. C. Rosa
via http://www.portodopoente.blogspot.com/

terça-feira, 19 de outubro de 2010

PAX MULTI MAX


uma PAZ
multifocal & multimodal
reinstaura a fluição edênica
confere-me asas que abarcam
todo o Orbe,
que cobrem o mundo e permitem
o vôo perfeito, total
- omniasas para que tudo voe
para Ti, ó Céu

S.R.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

NO PARAÍSO


“no Paraíso, estive à beira de todas as cores
quando as manhãs acordaram nos meus olhos”
J. T. Parreira, “Expulsão do Paraíso”

Percorridos todos os limiares
e arestas negras, as artérias de granito
em vez da ondulação dos teus cabelos
trocadas as tuas carícias por um grito

culpados de todas as traições
de nos acolhermos ao colo de um pai estranho
extraviados da sabedoria de todas as cores
que falavam das manhãs acordadas de antanho

esquecidos das brisas lentas
das conversas sob as árvores ao fundo
da tarde, restou-nos a sombra do teu vulto
projectada como noite sobre o mundo

Mas na tua carne e no teu sangue
rasgaste para sempre a distância a frio
depusemos então as saudades à soleira da porta
reaprendemos então a alegria da Tua voz de rio

Rui Miguel Duarte
7/10/10

Publicado ineditamente em Poeta Salutor

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um poeta pára de escrever


O poeta encomendou o silêncio
amadureceu as vestes
Se o poeta parar de escrever
onde poderão os pássaros encher
as mãos dos homens
do mistério das asas
onde poderá crescer o grão
do trigo debicado pelo vento
que é a ondulação
do mar nas searas

Se o poeta parar de escrever
o rebanho dos homens
adormece e sonha paredes em branco
sem o lirismo de uma janela

O poeta não depende do sol
nem do atavismo de estrelas
no seu sangue, o poeta nasce
de si mesmo, se mesmo se exilar
continua a ter cânticos como lábios

O poeta se parar, escreve
nos seus olhos com as lágrimas.
10/12/2009
J.T.Parreira

Um incêndio em Alexandria, e duas ressurreições

.
Confeitaria Cristã
 Foto minha de uso livre, via Flickr

Na mesa do Café
(por quantos anos eu sonhei
Com este fútil prazer intelectual,
Sentar-me à mesa de um Café e confabular)
Você transpira uma verdade ríspida,
Um transpirar que se solidifica,
Se doloriza em palavras:

“Não se poderiam escrever
Livros sobre a Queda;
Todos os livros são sobre a Queda.
Os livros existem simplesmente por que
Um dia em Adão todos nós
Fomos derrotados.”

Silenciamos por 30 segundos
(e há visões interiores de devassadas
estantes, e há amor em nossa amizade)
E eu concluo:

“Avancemos pois sem embaraços
Para Aquele único que realmente
Tem algo a dizer,
Aquele que projetou-nos os corações
Para que fossem as tábuas bastantes
E únicas
De Sua escritura.”

Ora vem, Senhor Jesus!

Sammis Reachers

sábado, 2 de outubro de 2010

Sob um novo Amanhecer

Caminho cautelosamente
sob o campo
de um novo amanhecer.
Por ele,
proliferam ervaçais que eu,
incansavelmente,
arranco pela raiz.
Mas ao amor,
e somente ao amor permito
o esparzir,
e o assenhorear-se,
da minha solidão.

Florbela Ribeiro®










domingo, 26 de setembro de 2010

O BOM PASTOR


O Bom Pastor é aquele

que conhece as quatro estações

das ovelhas


conhece a espessura da sua lã

e sabe que esta se no Verão lhes sobra

no Inverno não lhes calafeta

todas as portas e janelas da pele

ao frio


O Bom Pastor

conhece os azimutes todos

dos caminhos bravios das montanhas

onde habitam todos os caules

que lhes servem

de alimento


no cajado do tempo

na vara das estações

cada uma com o seu açoite

cada uma com o seu consolo


conhece-lhes os esgares do céu

de que boca de floresta

de que toca da noite

espreitam quentes os focinhos dos lobos


O Bom Pastor

é aquele que canta um canção

de amor à lânguida flauta

para as suas ovelhas

que lhes oferece no flanco

moribundo

um redil para seu abrigo


no cajado do tempo

na vara das estações

cada uma com a sua morte

cada uma com a sua vida


Rui Miguel Duarte

19/09/10

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ELIAS


Quem está na montanha vê as coisas de cima

e a roupa do corpo parece-lhe durar

para sempre imune aos temporais

e ao alvoroço vacilante da multidão


quem está na montanha

toca com a ponta dos dedos

nos lumes do céu

e maneja mais destramente

o trovão, a majestosa imponência

dos dedos de Deus


quem está na montanha

de um gesto

incendeia o altar do sacrifício

e jorra o rio

na água límpida das pedras


quem está na montanha

domina as artes do discurso

é mestre de ilusionismo bobo de feira

tratador de ventos terramotos fogos

doutor da mais cristalina sabedoria


quem está na montanha

é paladino e chanceler da justiça

da nação


quem está na montanha

da montanha pode cair

e só numa gruta abscôndita na alma

pode escutar o sussurro

o harmonioso murmúrio

da voz de Deus


Rui Miguel Duarte

12/09/10

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Cântico dos Hebreus no Egipto

Nós nem sequer sabemos
o Teu Nome,
dançamos ao estalo do chicote,
endurecemos a lama
com a tristeza nos pés, pese
embora o nome
que nos deram, abre
o caminho entre as estrelas,
põe o Nilo a regar as raízes
contra a fome,
e nós aqui, ainda sem sabermos
o Teu Nome.


Inédito de J.T.Parreira

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um Funeral Romano

Um deus icônico
Fundido em chumbo
Afixado a uma
Estrutura cruciforme
De madeira

Na parede da sala
                                                                                          Dos séculos
                           Das mentes

Regiamente

Fixo
Fixo
Fixo
Fixo
Fixo
Fixo
Fixo
Fixo
Fixo
Fixo
fixo
f
i
x
o

terça-feira, 7 de setembro de 2010

PROCURAMOS UM DEUS


"O reino dos antigos deuses não resgatou a morte / E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte"

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Senhora da Rocha"


Há manhãs que acordam nos rostos

opacos e escuros das tempestades

para nosso afrontamento, e que assim

nos conduzem a quebrar a aliança

que nos liga às coisas

à realidade


a estilhaçar o fio de prata

que nos liga ao corpo, ao chão fremente


mas tudo se pode afundar no mar


é então que sacerdotes de um culto estranho

nos aproximam do peito as facas

igualmente escuras e opacas

e no-las apontam com rigor ao coração

e nós derivamos o olhar, o clamor

para os recintos rasgados na terra

para os círculos dilacerados no céu

em demanda no voo das aves

de um olhar fresco dos deuses antigos

de uma voz que se fizesse ouvir

na vibração dos ares


nas paredes poliédricas de templos de seda

procurámos o reino, o lugar de repouso

a casa à beira-mar

mas nada nos resgatou da morte

nada desviou a sombra da faca

da aorta, para longe da boca do medo

o reino dos antigos deuses

não chegou ao nosso meio

porque era vazio e frio de granito

e quanto se exaltou o vento

assim se foi


e sem saber sabíamo-lo: buscávamos um deus

que transpusesse as paredes e o espaço

que morresse connosco a nossa morte

nos secasse o rio que dos rostos

nos colos das manhãs ainda caem

e nos desdobrasse as asas

da sua vida


Rui Miguel Duarte

04/09/10


SIMÃO DE CIRENE


“Quando o levavam, obrigaram um homem de Cirene chamado Simão, que vinha do campo, a carregar a cruz de Jesus às costas e a seguir atrás dele.”

Evangelho de Lucas 23,26 (versão A Bíblia para todos)


Simples homem da terra,

tisnado e áspero como os bois

irmãos do arado


o teu braço,

que antes se habituara

a quebrar na enxada

outro braço agora, de soldado

amante de sangue

ignorante das tuas horas

nesta hora ignaro

de demente vingança

prende e esmaga


braço por braço

ombro por ombro

sobre as tuas costas

faz poisar o peso de pena

de um condenado


abate-se a canga do céu

despojado de estrelas

a cruz toda do mundo


RUI MIGUEL DUARTE

29/08/10

segunda-feira, 6 de setembro de 2010


Já ouvi
por tão reiteradas vezes
que sou um homem insuportável
Tu és o Deus que Suporta


Pó embaraçado em pó
sou, espectro sem nome
                                    sem nome
                                                      sem nome
                                                                   sem nome 
Tu és a Minha Herança


Já morri
pelas próprias mãos de meus aliados
Tu és a Rocha da minha Ressurreição


Deus estranho, Deus que se esconde
Deus que ama até as enésimas potências
Nada tenho além de Ti



              Amanhecer

                                                    Amanhecer

              Tu és (o) Amanhecer

S.R.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Arte Poética


Com as palavras faço
acrobacias imediatas, de olhar fixo
no céu firmo os meus pés,
sobre o ar.
®Florbela Ribeiro

domingo, 29 de agosto de 2010

A História se Repete

(SALMO 84)
O pardal encontrou casa
A andorinha ninho
O salmista e EU os altares do Senhor
Onde mais vale passar um dia
Que mil em qualquer outro lugar

Pr.Luiz Flor dos Santos
http://pulpito.blog.terra.com.br/

sábado, 21 de agosto de 2010

Salmo 122, inédito de J.T.Parreira


Há uma casa que me espera, a casa
de alegrias, em que entro sem manto
nem glória sobre os ombros
a casa é apenas o que
meus olhos vêem
e o meu hino ergue
De dentro da casa
saem o dia e a noite, o céu
não é o que vemos azul
ou intangível negro
Alegrei-me quando me disseram
vamos à Casa do Senhor
construir as paredes
com nossos corpos
o tecto
com as imagens que estão
no nosso olhar
Alegrei-me quando de um golpe
a Casa do Senhor
escorou minhas ruínas.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A.D.D.



Em face à viscosa belicosidade do mundo
(quando respondo mal com mal)
blindo meus poros com lâminas
e sou o primeiro dos mutilados, Senhor,
o 1º dos Andarilhos Despedaçados pelo Desamor


Mas quando venço, quando 
tenho flores,
oh, Senhor!
Sou um céu
para 30 precipícios

Sammis Reachers

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Homenagem a meu pai em seus 86 anos

herdade


teu pigarro
tua morosidade
teu cigarro
tua comodidade

teu desejo sereno, silencioso
tua resignação
teu bocejo, terreno arenoso
tua solidão

remetiam-me todos
ao teu dia de morte
em que amaria
ouvir teu pigarro
apagar-te o cigarro
não ter-me irritado assim

e eu seria dono de nas noites
todas as tosses
e das manhãs herdaria teu
amigo emudecido, o chimarrão

em todas as bonanças absorveria
tua calma —
nossa eterna placidez!

(não precisas deixar-me
a frieza... a indiferença
dá a teu primogênito
deita a outro e/ou a outro
tua limitosa e eterna paciência e... ah!
desprograma
a mansidão
a lerdeza
a moleza
e todo ruim de então)

Mas já não te cherarei em nenhuma ala
de nenhum fumante
de nenhum avião
— embora sabendo
que nada levarás
que for chimarrão —,
certo de encontrar-te
na casa dAquele que soprou tua fumaça
e ao decepar o teu deus te deu um Amigo.
tu son


De Fabiano Medeiros (1989)

sábado, 14 de agosto de 2010

ESTRELAS


"Gosto muito mais /De olhar as estrelas / que de assinar uma sentença de morte"

(Velemir Khlebnikov)


Gosto muito mais

de olhar as estrelas


o meu olhar bem sabe

onde se quer perder

no pontilhado do céu, no lustro dos astros


que de assinar uma sentença de morte


a minha mão bem sabe

o que escolheu,

com que lustrar

e pontilhar a folha branca


se estou só, se o ódio

acomete com a sua asa de pedra

não cedo

que murmure

que impetre o ofídio morte

ao meu semelhante

viro-lhe as costas

da mão e da face


a mão não pode escrever outra coisa

senão o que os olhos vêem

é assim que é


como poderia suportar a perda

de uma das estrelas

do meu firmamento?

de uma só, por mais fosca que seja

a sua luz

vê-la cadente seria matá-la


e isso eu não faço!


13/08/10



Vida Irrespirável

Uma estranha vida
chega sem pedir licença
instala-se
e entranha-se nas entranhas
Vem repentina
à ligeira e zás
coloca-nos nas masmorras
opressoras das lides
contratos abstractos
e obrigações intermináveis
E o ar da carruagem obsoleta
torna-se assim irrespirável.

Florbela Ribeiro®

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Insight

5

Não se verá a sublimidade desta esfera.
Não se haverá de compreender
o que paira
por detrás da lágrima
ou do sorriso
e dispensaria palavras.
E, ante a fúnebre presença
do entardecer,
cair-se-á no erro
da insensibilidade.

Há que se retomar
a essência esvaída,
aguçar os sentidos,
dar-se sem limites.

Pois foi na tristeza
pesada da noite
que um dia
eu encontrei um amor,
e foi na aridez
do deserto,
por onde já muito passei,
que descobri
o valor
das águas cristalinas,
que correm da fonte
sobre rochas
indestronáveis.

Quem é mais estéril:
este deserto
que me deu
uma flor
ou vós
que não vedes
beleza em nada
que fazeis -
a indizível
beleza das pequenas
cousas?

De Fabiano Medeiros (1988)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Amor e Fuga em Auschwitz, inédito

(foto-montagem de f.r.)


Um amor numa esquina furtiva
de arame farpado, um delírio
que liga o amor apenas trocado
entre as mãos e os olhos
no rumo da noite, no bosque do céu
ramos de estrelas
cobrirão nosso rasto.

11/8/2010

(c) J.T.Parreira

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Autoexortação

3

Eu sei que percorreste distâncias
em dias tão causticantes;
que galgaste estradas sozinho -
sei das vezes sofridas da caminhada,
que também, dentre outros,
neste mundo enfim,
sentes perenemente a dor.
Conheço-te e sei o que é o teu pesar,
o que te tem entediado até:
mas que te quiseste enlaçar, quiseste.
Não lutaste quando devias
e foste correndo em direção
aos laços que hoje te oprimem.

Porque te atraem as luzes,
esses brilhos fugazes,
essas ruas de fulgor efêmero,
essas belas coisas
que teus olhos veem
sem perceber que são
apenas miragens:
vives num deserto
onde não há senão a beleza da areia,
beleza louca, pois inconstante,
volúvel como tudo o mais.
E como tu...
Como tu somente...

Tu procuraste cavar sepulturas
quando havia campos
onde semeasses...
havia desespero e dor,
havia sede ao teu redor.
Ah, tu, que tudo tinhas
e na mão retinhas
a resposta que receberas,
retendo-a tão-somente
nem para ti.
Quando se te clamava,
negavas ser forte
e matavas milhares,
e te matavas a ti.

Agora,
põe-te aqui diante de mim
e esvoaça.
Liberta-te para
circulares por mim.
Então tu verás
este meu ser circunscrito,
minha apoteose infrutífera.

Deita de lado o que
vês simplesmente.
Restaura-te,
instaura em teu ser
o compreender que transcende,
que ultrapassa
os limites da mente.
Busca até já não poderes ver.
Eleva-te acima
da tua mediocridade,
e arrasta-te se não puderes
sem ela caminhar.
Mas vai-te ao encontro
do que vires
e cessa de te ateres
ao teu mero esquadrinhar.

De Fabiano Medeiros (1988)
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