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segunda-feira, 19 de março de 2012

Pai



Eu preciso tanto de ti
Eu preciso sentir a cada dia
A força e a coragem
Que emana da nobreza do teu carácter
Eu preciso sentir
A sábia envolvência da tua voz
Os teus conselhos
A chave mestra
Com a qual me abres
O entendimento
E a visão
Para a realidade de um mundo
Sem artifícios.
Pai
Eu preciso tanto de ti
Do refúgio do teu colo
Do teu abraço que afugenta de mim
Tanto as mágoas como os medos
Pai
Eu preciso da ternura balsâmica
Que vertes sobre meus cabelos
Esse gotejar constante de afagos
Que me cura as feridas
E atenua as marcas
Que vida impiedosa me faz ao passar
Pai
Eu preciso tanto mas tanto de ti

Março 2010

Florbela Ribeiro®

domingo, 18 de março de 2012

MEDITAÇÃO SOBRE O SALMO 137

recostamos os joelhos à beira dos rios
da Babilónia, os rios onde nem
os pés lavamos da marcha desde Sião,

mas os pensamentos vão lavados
e perambulam como corças
pela nudez acre da nossa terra
esfolada
perguntando aos rios se
haverá ainda por lá salgueiros em pé

é que nos arrancaram dos olhos
os contornos de Sião
e despojaram os nossos ombros
do linho de Jerusalém,
e nus nos deixaram
sem a túnica santa e branca que vestíamos
ao sábado

se de ti, Sião, a memória se escoar
nestas águas estranhas
que os dedos da minha mão direita
percam o tacto sejam fantasmas
nas cordas da harpa

19/03/12

Réquiem para Uma Prostituta de Meu Tempo

Pós-Modernidade
Sepulcro de santos e musas
Já me trituraste
na moenda de tuas literaturas,
envenenaste-me
com o fel laicizante de teus seios, a litania
de teu caos

embebedaste-me no meu dia mal,
lançaste-me em tuas paredes
de artes abstratas e relatividades
& sevícias
em minha fraqueza chutaste-me
as costelas com tuas pontiagudas
sapatilhas de dominatrix

mas ah! deusa vã,
Semíramis suicidada,
nem com toda a tua sanha cibernética
alcançaste matar-me
o sol romântico que em meu peito pulsa
tua dialética não logrou desconstruir
como Samá no cimo
daquele campo de lentilhas, eis-me aqui

relativizaste a Lei e vomitaste sobre a Graça,
mas saiba que no inferno não subsiste
relatividade alguma,
apenas encarceramento em fogo
adstringente-anelante-massivo
ruidosamente teu

olhe em meus olhos negros, espírito imundo
acesse a tua própria memória genética,
lembra-te de mim, dos nomes invisíveis
que em meus genes fremem
e contra ti solfejam em si bemol
a ária de Gideão, o brado retumbante

sou Josué e Leônidas, Péricles e Davi

meu punho direito nomina-se Atenas,
meu punho esquerdo é para sempre Esparta
minhas asas são o Livro de Cristo
e o meu coração é o de um mosqueteiro

ciberdemônio súcubo de sexo
e cápsulas de ecstasy
solta o meu braço, Messalina antropofágica
arreda de mim os dedos teus ressequidos
de niilismo, Górgona vampira...

Jezabel, Inversão, Vazio
Trago em meu alforje um mistério a compartilhar-te,
cabala para embalar teus pesadelos midiáticos:
antes de nós ambos nascermos
morreste tu em Sião, vencida, esmagada
num rude madeiro,
madeiro rude o mesmo
onde eu fui ressuscitado

sou uma criança e um servo e
um soldado e um
príncipe
para o meu Amado
                              não, não me toques

Mas olhe em meus olhos negros, ó aborto de Lilith:
é neles que eu trago o teu sepulcro.

Sammis Reachers

segunda-feira, 12 de março de 2012

Dois poemas de J.T.Parreira

A RESSURREIÇÃO DO MEU SENHOR
Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei”
Jo 20,15

As especiarias chegariam na manhã
fora de tempo, outro perfume
já do Lírio dos Vales rescendia
Ao encontro dos lençóis dobrados sem um corpo
certas mulheres
levavam os aromas da tristeza
deixaram a manhã ir crescendo no caminho
no chão nas casas no horto
agora o corpo do Senhor era um segredo branco.

6/3/2012



SALMO LEIGO

Por vezes, penso em Ti como o topo
da minha montanha, outras como um vale
onde o sol
vai deixando vestígios de sombra
purifico os meus pulmões com braçadas
de ar puro dos montes, vou atrás de mim
no vento infantil, que toca e foge
nos vales
não preciso de subir às Tuas mãos
elas me carregam, nunca as vi
fazerem-me adeus de longe.

5/3/2012

(c) João Tomaz Parreira

domingo, 11 de março de 2012


POR ONDE ANDA UM POEMA

Por onde anda um poema
um só esgaçado nas orlas da tarde?
um poema que não vá em modas
novas como uma brisa que não sacode
os nossos ombros

por onde anda um poema
um só capaz de rescender maresia?
dai-nos um desses à língua
sem lhe retirardes o sal

dai-nos esse pão nosso quotidiano
que perdoa todas as ofensas
e nos eleva às alturas do canto
a rasar as asas dos pássaros

buscamos esse poema
limpo da textura de água
em que a infância
encontre a sua casa

11/03/12

terça-feira, 6 de março de 2012

SEGREDO

Uma árvore tem sempre esperança; mesmo que a cortem, brota de novo e não pára de produzir rebentos.
Job 14:7

deixa-me contar-te,
criança velha,
o segredo da árvore

sempre de pé, mesmo quando
lhe deitam o tronco
e os ramos são separados do sol
mesmo quando suspendem
o abraço com o qual te consolavam
vegetal, e por isso
tão rente à terra

criança velha,
da árvore eis o segredo:
a raiz sempre permanece de pé,
apegada à fertilidade
do silêncio

6/03/12

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Quando o Amanhecer me surpreendeu no fundo de uma trincheira

Lewis W Hine: Soldier in Trench-Smile (Letter from Home) 1918-1919

Sinto estrugirem os sons de uma paz furiosa 
É A TUA SALVAÇÃO QUE HOJE RUGE NOS QUATRO CANTOS DA TERRA
e me (res)suscita

Sammis Reachers

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

QUEM OS DEUSES AMAM


Ὃν οἱ θεοὶ φιλοῦσιν ἀποθνῄσκει νέος
Quem os deuses amam morre novo

Menandro

os deuses amam
as tuas gargalhadas
e riem-se
encontram nos teus olhos
pérolas incandescentes
que anelam possuir
e para isso retorcem
os dedos

os deuses na tua boca
a voz amam
clamam pelo que tens
e eles não conhecem
e por isso no teu corpo jovem
acordam o sonho
e na mesma pressa de amar
to reclamam

quem os deuses amam?
que deuses amam?

18/02/12

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A Neve

Crianças finlandesas mortas por milícias soviéticas em Seitajärvi1942

A Neve

Para Simo Häyhä, um sobrevivente

[Sou] um partisan da resistência finlandesa
um aos porcos-soviéticos-não-prostituído
não-prostituído
pela alemã escória
integrado à resistência
da França Combatente de De Gaulle

Amalgamado ao meu rifle Mosin-Nagant
(minha-mãe-minha-segunda-alma)
Na aurora da Operação Overlord

[sou um homem sem nome e]
morto

deixa[n]do para trás

o frio de um vazio casebre,
um cão enterrado na neve,

                                                                       7.776
                                                                               ausências.

Sammis Reachers

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Os Arrebatados

( I Tess 4,17)



Deve ser bonito desaparecer no ar
com as costas leves voltadas
para o passado, deve ser bonito
sentir que a noite e o sol
se atravessam
como atravessamos um perfume
deve ser bonito dizer as palavras
desenhadas sem os lábios
sem gelo e sem lume
desaparecer no dia que há-de vir
deve ser bonito desaparecer no azul.
 

J.T.Parreira