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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Joanyr de Oliveira: Dois Poemas Para Benjamin Moloise




DOIS POEMAS PARA BENJAMIN

O governo sul-africano é
tão cruel, tão cruel, tão cruel!
(Mamike Maloise, mãe do poeta executado).

I
Um poeta na face da Terra
não é apenas blandícias
no rosto dos montes;
não é apenas silêncio
nas frontes matutinas.

Um poeta na face da Terra
não é apenas metáforas
na boca de anjos;
não é apenas folguedos
na voz dos meninos.

Um poeta na face da Terra
não é apenas cabelos
e folhas na aragem;
não é apenas canções
na alma dos homens.

II
Mãos brancas enrubesceram:
Hoje é dia 18 de outubro.
A pena do poeta tombou
alvejada pelos gumes da ira.
Alô, mártir, adeus, irmãozinho
da multidão soluçante.
Irmãozinho Benjamin, escuta:
pássaros e nuvens comemoram
a chegada, nas asas do vento,
do filho maduro de um povo.
A corda em tuas cordas vocais
não sufocou os poemas.
O sangue do poeta: chamas
no coração de um mar
pretíssimo, mais que a noite.
O relógio da História palpita,
vai detonar-se a si mesmo!
Adeus, adeus, Benjamin Moloise.
Mas lembra-te de voltar, poeta,
quando a liberdade florescer
na pele negra de um povo.

In Tempo de Ceifar

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Um soneto de Joanyr de Oliveira


Klee, Legend of the Nile

DA ESQUIVA PALAVRA

Se a palavra se esquiva, vou buscá-la
com paixão, com desvelo e reverência;
nunca sei se num mestre ou numa vala,
porque sempre aceitei sua inocência.

Sei do verbo nas fossas e nas chamas,
mas prefiro da moeda o lado oposto:
as palavras são virgens ou são damas
a oscular o silêncio de meu rosto.

Navegante da noite, me maltrata
o nosso corpo-a-corpo, a nossa luta
em que tanto rejeita quanto é grata.

Essa lânguida fêmea... ela se oculta
pelo ermo de meu ser, e me arrebata
intangível, fugaz, plena e absoluta.

in Tempo de Ceifar

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

ESCONDO-ME, poema de Joanyr de Oliveira

Diego Rivera: Construção do Palácio de Cortéz (detalhe)


Escondo-me de Hernán Cortez
(como os astecas: súditos e reis),
dos bacamartes de Espanha
que emergiram sorrateiros.


Escondo-me da fome de esmeraldas
que bebeu rios de sangue
nas veredas do Anhanguera.


Com os escravos brancos
daquelas guerras antigas,
com os cativos soluçantes
(ah, os zonzos navios negreiros),
vou estendendo meu grito
nos subterrâneos do dia.
Com os pássaros enlouquecidos
e os nativos do sul,
escondo-me de corpo inteiro
- antes da vinda do Sol –
da ordem unida dos “marines”,
e das nuvens de napalm
a apunhalar as alturas,
e das nuvens de napalm
a incendiar o galope
dos meninos amarelos.
Escondo-me dos tanques vermelhos,
com a grande estrela do pânico,
nos brancos portais de Praga.


Escondo-me das mãos
que mataram as canções longas
do poeta Federico,
das baionetas noturnas
que assustaram toda a ilha
e os sóis de Pablo Neruda.


Escondo-me das mãos ainda
que escrevem com cassetetes
a suja palavra: “apartheid”.


Escondo-me dos que me exilarão
de itinerários antigos,
se barrigas indiscretas
roncam seu pleno vazio
e os roncos fendem meu sono.


Escondo-me com meus irmãos
dos loucos tecelões da noite.


Joanyr de Oliveira
in Tempo de Ceifar (Thesaurus Editora, 2002)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Quase à Guisa de Bertold Brecht


Os donos da indústria bélica
louvam a destreza das máquinas
em seus partos desvairados
de canhões, morteiros, bombas,
fuzis, metralhas e lâminas
nos campos da guerra.


Aplaudem os genocídios,
freneticamente. Brindam à saúde
de suas contas bancárias.
Os donos da indústria bélica,
sem olhos para os órfãos,
sem tímpanos sensíveis
ao clamor lancinante
das noivas e viúvas.


Os donos da indústria bélica,
parceiros de corvos, de abutres,
brindam ao regozijo das trevas
nos campos de batalha,
a sorver na mais funda sofreguidão
o sangue dos mortos.


Joanyr de Oliveira
in Tempo de Ceifar (2002 Thesaurus Editora)
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