domingo, 18 de março de 2012

Réquiem para Uma Prostituta de Meu Tempo

Pós-Modernidade
Sepulcro de santos e musas
Já me trituraste
na moenda de tuas literaturas,
envenenaste-me
com o fel laicizante de teus seios, a litania
de teu caos

embebedaste-me no meu dia mal,
lançaste-me em tuas paredes
de artes abstratas e relatividades
& sevícias
em minha fraqueza chutaste-me
as costelas com tuas pontiagudas
sapatilhas de dominatrix

mas ah! deusa vã,
Semíramis suicidada,
nem com toda a tua sanha cibernética
alcançaste matar-me
o sol romântico que em meu peito pulsa
tua dialética não logrou desconstruir
como Samá no cimo
daquele campo de lentilhas, eis-me aqui

relativizaste a Lei e vomitaste sobre a Graça,
mas saiba que no inferno não subsiste
relatividade alguma,
apenas encarceramento em fogo
adstringente-anelante-massivo
ruidosamente teu

olhe em meus olhos negros, espírito imundo
acesse a tua própria memória genética,
lembra-te de mim, dos nomes invisíveis
que em meus genes fremem
e contra ti solfejam em si bemol
a ária de Gideão, o brado retumbante

sou Josué e Leônidas, Péricles e Davi

meu punho direito nomina-se Atenas,
meu punho esquerdo é para sempre Esparta
minhas asas são o Livro de Cristo
e o meu coração é o de um mosqueteiro

ciberdemônio súcubo de sexo
e cápsulas de ecstasy
solta o meu braço, Messalina antropofágica
arreda de mim os dedos teus ressequidos
de niilismo, Górgona vampira...

Jezabel, Inversão, Vazio
Trago em meu alforje um mistério a compartilhar-te,
cabala para embalar teus pesadelos midiáticos:
antes de nós ambos nascermos
morreste tu em Sião, vencida, esmagada
num rude madeiro,
madeiro rude o mesmo
onde eu fui ressuscitado

sou uma criança e um servo e
um soldado e um
príncipe
para o meu Amado
                              não, não me toques

Mas olhe em meus olhos negros, ó aborto de Lilith:
é neles que eu trago o teu sepulcro.

Sammis Reachers

segunda-feira, 12 de março de 2012

Dois poemas de J.T.Parreira

A RESSURREIÇÃO DO MEU SENHOR
Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei”
Jo 20,15

As especiarias chegariam na manhã
fora de tempo, outro perfume
já do Lírio dos Vales rescendia
Ao encontro dos lençóis dobrados sem um corpo
certas mulheres
levavam os aromas da tristeza
deixaram a manhã ir crescendo no caminho
no chão nas casas no horto
agora o corpo do Senhor era um segredo branco.

6/3/2012



SALMO LEIGO

Por vezes, penso em Ti como o topo
da minha montanha, outras como um vale
onde o sol
vai deixando vestígios de sombra
purifico os meus pulmões com braçadas
de ar puro dos montes, vou atrás de mim
no vento infantil, que toca e foge
nos vales
não preciso de subir às Tuas mãos
elas me carregam, nunca as vi
fazerem-me adeus de longe.

5/3/2012

(c) João Tomaz Parreira

terça-feira, 6 de março de 2012

SEGREDO

Uma árvore tem sempre esperança; mesmo que a cortem, brota de novo e não pára de produzir rebentos.
Job 14:7

deixa-me contar-te,
criança velha,
o segredo da árvore

sempre de pé, mesmo quando
lhe deitam o tronco
e os ramos são separados do sol
mesmo quando suspendem
o abraço com o qual te consolavam
vegetal, e por isso
tão rente à terra

criança velha,
da árvore eis o segredo:
a raiz sempre permanece de pé,
apegada à fertilidade
do silêncio

6/03/12

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Quando o Amanhecer me surpreendeu no fundo de uma trincheira

Lewis W Hine: Soldier in Trench-Smile (Letter from Home) 1918-1919

Sinto estrugirem os sons de uma paz furiosa 
É A TUA SALVAÇÃO QUE HOJE RUGE NOS QUATRO CANTOS DA TERRA
e me (res)suscita

Sammis Reachers

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

QUEM OS DEUSES AMAM


Ὃν οἱ θεοὶ φιλοῦσιν ἀποθνῄσκει νέος
Quem os deuses amam morre novo

Menandro

os deuses amam
as tuas gargalhadas
e riem-se
encontram nos teus olhos
pérolas incandescentes
que anelam possuir
e para isso retorcem
os dedos

os deuses na tua boca
a voz amam
clamam pelo que tens
e eles não conhecem
e por isso no teu corpo jovem
acordam o sonho
e na mesma pressa de amar
to reclamam

quem os deuses amam?
que deuses amam?

18/02/12

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A Neve

Crianças finlandesas mortas por milícias soviéticas em Seitajärvi1942

A Neve

Para Simo Häyhä, um sobrevivente

[Sou] um partisan da resistência finlandesa
um aos porcos-soviéticos-não-prostituído
não-prostituído
pela alemã escória
integrado à resistência
da França Combatente de De Gaulle

Amalgamado ao meu rifle Mosin-Nagant
(minha-mãe-minha-segunda-alma)
Na aurora da Operação Overlord

[sou um homem sem nome e]
morto

deixa[n]do para trás

o frio de um vazio casebre,
um cão enterrado na neve,

                                                                       7.776
                                                                               ausências.

Sammis Reachers

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Os Arrebatados

( I Tess 4,17)



Deve ser bonito desaparecer no ar
com as costas leves voltadas
para o passado, deve ser bonito
sentir que a noite e o sol
se atravessam
como atravessamos um perfume
deve ser bonito dizer as palavras
desenhadas sem os lábios
sem gelo e sem lume
desaparecer no dia que há-de vir
deve ser bonito desaparecer no azul.
 

J.T.Parreira 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

MÃE E FILHO

(Para este quadro de Gustav Klimpt)

Os seios da Mãe como os templos
comunicam
os mistérios divinos
São duas fontes
de onde já correu o leite
perfumado da primeira aurora
O peito da Mãe encerra

tesouros profundos, o coração
é um delta de diamantes
Enriqueceu dias áridos
na espera febril dos lábios
inocentes dos filhos
que dormiram entre luas perfeitas
e beberam, como um sol bebe
as águas que secam sobre a terra.



J.T.Parreira 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Joanyr de Oliveira: Dois Poemas Para Benjamin Moloise




DOIS POEMAS PARA BENJAMIN

O governo sul-africano é
tão cruel, tão cruel, tão cruel!
(Mamike Maloise, mãe do poeta executado).

I
Um poeta na face da Terra
não é apenas blandícias
no rosto dos montes;
não é apenas silêncio
nas frontes matutinas.

Um poeta na face da Terra
não é apenas metáforas
na boca de anjos;
não é apenas folguedos
na voz dos meninos.

Um poeta na face da Terra
não é apenas cabelos
e folhas na aragem;
não é apenas canções
na alma dos homens.

II
Mãos brancas enrubesceram:
Hoje é dia 18 de outubro.
A pena do poeta tombou
alvejada pelos gumes da ira.
Alô, mártir, adeus, irmãozinho
da multidão soluçante.
Irmãozinho Benjamin, escuta:
pássaros e nuvens comemoram
a chegada, nas asas do vento,
do filho maduro de um povo.
A corda em tuas cordas vocais
não sufocou os poemas.
O sangue do poeta: chamas
no coração de um mar
pretíssimo, mais que a noite.
O relógio da História palpita,
vai detonar-se a si mesmo!
Adeus, adeus, Benjamin Moloise.
Mas lembra-te de voltar, poeta,
quando a liberdade florescer
na pele negra de um povo.

In Tempo de Ceifar

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Ele veio buscar os doentes



Meu corpo e cismar estavam em trevas;
Jesus semeou Luz sobre minha face.

Hoje - semente de sequóia
que um humilde lança,

Amanhã - bosque de eucaliptos
no deserto que eu era

( e onde
cada folha é  uma misericórdia;
Grande bosque, quem,
olhando uma a uma
contará o seu número piedoso? )

Sammis Reachers
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