segunda-feira, 18 de abril de 2016

PEREGRINO



“No, I have no country
except for these clouds rising as mist from lakes of poetry.”
Adonis



Não, não tenho nenhum país
excepto esta estrada que começa sempre nos meus pés
excepto  esta chuva que inunda as sombras das rosas
estas nuvens
que entre o cinzento e o branco, alternam lagos azuis no céu
a poesia da névoa de que emergem as manhãs
Não, eu não tenho mapas que estremeçam
Com o vento, abertos nas minhas mãos.
Não tenho nenhum país, nem templos
excepto esse aonde vou onde está Deus.


17-04-2016

© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 4 de abril de 2016

DALILA SOBRE SANSÃO DORMINDO


Ardem os meus dedos nos teus cabelos
são réus do fogo imanente dos teus lábios
onde os meus se indignam

ardem os meus sonhos de ouro
e perguntam: o que ensinam
sobre os segredos, são lenda gasta
pelas noites, no saltitar das gazelas gémeas?

ardem os dados que lançaram
os meus mármores brancos
nos teus cabelos, sim, nas tuas tranças
que são o vulcão desta terra
e o vendaval deste coração

ardem e consomem-se eriçadas
as minhas curvaturas nas tuas arcadas
os teus cavalos nos meus montes
ardem e traçam para sempre
de sol e estrelas
um novo alfabeto

Rui Miguel Duarte
04/04/16

sexta-feira, 25 de março de 2016

NA CRUZ

"Para ele nascer morri"
Almeida Garrett

Doem-me as mágoas dos homens
os seus dolos ardem-me as têmporas
dos homens nascidos para a morte

a massa do mundo pesa-me
por dentro do ferro
por vós homens, que tendes a transgressão
por norma. Quem entendeu
o que cantava a cítara antiga,
quem entendeu a subida ao monte
em que a faca encontra
rente ao sangue o cordeiro
do silêncio? Quem entendeu
o protesto do profeta até aos abismos?

Para nascerdes é que eu morri
para que o Sol vos risse
é que as Estrelas choraram

Rui Miguel Duarte
25/03/16

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

ORAÇÃO FEITA PARA UM ESPELHO



(Lc 18:11-12)

Graças te dou, a Ti, que estás desse lado
porque não sou como os outros, A minha ganância
é comedida,  A minha  justiça é de pedra
Não sou adúltero, A não ser comigo mesmo
e com a minha beleza, Jejuo
para fazer compreender ao pobre que a fome
nos disciplina o corpo, Dou o dízimo de tudo
dos meus dez dedos, um
é teu e serve para apontar o erro alheio, Dos outros
não há ninguém que não seja publicano.

29-12-2015


© João Tomaz Parreira 

sábado, 26 de dezembro de 2015

REPOUSO

Si l'enfant repose,
Un ange tout rose,
Que la nuit seul on peut voir,
Viendra lui dire "bonsoir!"

Marceline Desbordes Valmore (1786-1859)

Ao menino que dorme
um anjo cobre e faz sombra
as asas trazem a estrela e depositam-na
no berço que não te alenta

cobre com as alturas dos hosanas
o rugido dos leões e o silvo das espadas
dos inimigos que arrefecem o ar
com ameaças de morte ao menino

vem aquietar o coração dos pais
dizer-lhes que a noite é amiga
nela se aperfeiçoam os perfumes
que nos chegam na viragem do dia

dorme bem — diz — menino,
hosana, repousa dos trabalhos,
depois do morticínio
estenderão as tuas mãos a paz

Rui Miguel Duarte
24/12/15

domingo, 29 de novembro de 2015

O PAI NOSSO


(O Angelus, Jean-Françoise Millet)


É o começo de uma bela amizade, nenhuma
outra é mais perfeita, sem impaciências
de Quem escuta com o coração.  Não sente o vão orgulho
de ter um reino, um nome sobre todo o nome
a sua vontade é o que Deus sente: Amor
assim na terra como no céu.  Pela sua mão
o pão distribuído na frescura das manhãs
sem esperar nada senão o nosso rosto
voltado para o seu, a nossa alma lavrada
pelo arado da Palavra, a nossa vida
como um fruto dos seus dedos. Ámen.   

29-11-2015

© João Tomaz Parreira


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

REGRESSO A OLISSIPO

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“Heureux qui, comme Ulysse, a fait un beau voyage…”
Joachim du Bellay (1522-1560)

Terá Ulisses visto fumegar a carne assando
subir acima das nuvens que submergiam a visão?
Por onde navegou ele entre Circe a a dormência

das ondas, que o embalavam para um lado e outro?
aspirava rever da aldeia a sombra
da casa que os seus maiores construíram
e cada onda empurrando a balsa

é um tijolo que refaz a memória da casa
do azul incandescente surgem aves
das bandas da ribeira, canto trazem a notícia

da morte das sereias, já não precisa o herói
de segredos de ser amarrado ao mastro
para aprender que o sonho é a realidade

a sabedoria e o amor, que Penélope
já não está encerrada em casa de mãos presas
ao tear, o dorso vergado ao sol

que nasce e se põe em cada dia
já não há sombra nem esperança
eis Olissipo que se eleva da claridade do rio

Rui Miguel Duarte
19/11/2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

MARIA AOS PÉS DE JESUS

“da sua lingua fluía um discurso mais doce que o mel”
Ilíada 1.249

da tua língua fluía a água
que abria as nuvens
o som de muitos anjos
sobrepondo-se-lhe a tonalidade
distinta da voz que fala da vida
da vida cheia de Deus

dos teus pés fluía o vinho
submergindo os meus pés
o meu colo o meu peito
até dentro do meu coração
onde cinza, que foi depositada e cala,
ganha a espessura da terra que espera
a semente e depois desta o arado
em silêncio

da tua voz fluía o mel
nenhum outro se lhe compara
quem o bebe, dizes, a melhor parte bebe,
ao prová-lo, sou uma ave
cujas asas são amor

Rui Miguel Duarte
9/10/15

Johannes van Vermeer, Christ in the House of Martha and Mary

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A MÃE



Os filhos não são um eu separado das mães
Com elas ao nosso lado nós tínhamos
Um útero, um cordão
De ouro invisível, com elas ao nosso lado
Sabíamos a origem das coisas, de onde viemos
Do seu ventre encanecido, com rugas brancas
Como os cabelos, com as mães ao nosso lado
Nós tínhamos uma certidão de nascimento.

05-09-2015
©  João Tomaz Parreira 

      

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

SALMO 150 PARA ORQUESTRA


São os dedos que louvam, procuram entre as cordas
A linha que separa o céu e a terra, um fio
De água pura que sai do sopro nas flautas.

Daí-me uma harpa doce e com ela sararei
Os ouvidos nas paredes do templo,
Um dulcimer cristalino 

Que na subtileza do som é um castelo forte, 
Para afastar os inimigos que minam a alma.
Daí-me o brilho dos olhos dos irmãos

Quando ungem os seus lábios num cântico.
Daí-me címbalos retumbantes 
Com eles racharei os muros do silêncio.


29-05-2015
© João Tomaz Parreira 

segunda-feira, 20 de julho de 2015

ÓCIO NEGÓCIO



“na interminável busca por vestígios de pó”
Margarida Campilho, Roma amor

interminável Marta, Marta,
arrastando diante de ti toda a terra
é o vestígio que buscas
debaixo do móvel
debaixo do tapete
debaixo de tudo
debaixo de ti, Marta

até à mais infenitesimal partícula
que buscas que inventas, de cada uma fazendo
um negócio um salário pois trabalhará o Homem
até à mais infinitesimal gota de suor do seu rosto

descobres e inventas, em cada coisa que trabalhas
a decomposição do átomo, e cada um decompões Marta,
e assim trabalhas até o teu próprio nome
M-a-r-t-a, M-a-r-t-a

e nisto dispões taça a taça a honra
que me ofereces no vinho, no cansaço
das ondas que batem continuamente
do mar da Galileia, tantos são os teus cuidados
para com o teu convidado,
sentado à cabeceira do jantar

isto basta: buscar aos pés do Mestre
as palavras que reinventam o mundo
sentada, Maria é a alma do ócio

Rui Miguel Duarte
9/07/15

quinta-feira, 9 de julho de 2015

MEDITAÇÃO DE ADÃO DEPOIS DA QUEDA

“Und wo wir Zukunft sehn, dort sieht es Alles
und sich is Allem und geheilt für immer”
“E onde nós vemos futuro vê ele Tudo
e a si no Todo e salvo para sempre”
Rainer Maria Rilke, in Elegias de Duíno 8 (original e tradução de Maria Teresa Dias Furtado, Assírio & Alvim)

Não queria sair do Paraíso. Por isso
quis ver Tudo da copa da árvore.
quis ser mais alto e sobretudo permanecer
caso me faltasse a mão para abarcar toda
a visão, todo o espaço do Jardim feito concha
pelos rios que correm sem nascente nem foz.

Ausente da brisa do crepúsculo,
que é o Teu rosto dado de frente
escolhi um vento com aroma
de um fruto dando de lado.

Há uma dor em mim que é a da aproximação,
quanto mais me chego a Ti mais me dói.
Ser ausente do que vi em Ti,
que vês Tudo, que és salvo em Ti
e eu em Ti nos Teus olhos
de sangue de animal manso.

Escolhi outro crepúsculo
um sol caído em outros olhos,
olhos de aproximação da cobiça
da vida ignorante de quão espesso
é o seu vazio, de que olhar
os rios do Paraíso, que são
a Tua presença,
é ver-Te ausentando-Te
e eu neles para longe
fluindo sem nascente nem foz.

Não queria sair do Paraíso mas possuí-lo,
não me chegava esta mulher que
me deste, só o ver-me Tudo
mais asa do que anjo
mais sabor do que fruto.

Mas foi ainda nas águas dos rios,
que são o que me resta do passado,
que vejo o futuro.

Rui Miguel Duarte
18/06/15

Originalmente publicado em Salmo Presente
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