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quinta-feira, 27 de abril de 2017

O OUTRO LADO DO RIBEIRO DE CEDROM



Esperavam-No a vontade do Pai e a sua
Agonia, a noite e as flores cabisbaixas
E o sono dos homens
E um cântico corrente das águas do ribeiro
De joelhos na terra fechou a sua angústia
Na tristeza do jardim, na dureza do chão
Que não era o seu lugar, no calafrio
O suor caia sobre as suas últimas palavras
Então falava ao coração do Pai
E os discípulos dormiam – dizem
De tristeza, levaram-No ainda as sombras
Não tinham declinado.



21-04-2015

© João Tomaz Parreira 

terça-feira, 7 de março de 2017

POEMA (Inédito)



“Were you there when they nail'd him to the cross? (Were you there?)

Tradicional cantado por Johnny Cash



Onde estava quando O crucificaram?
Poderia estar sentado à mesa
De trabalho, com a minha gata a dormir
Sob a luz do candeeiro, poderia estar
A ler um livro que me abrisse o mundo
Quando a madeira
Da cruz lhe feria os ombros de cansaço
E os cravos abriam a corrente do sangue
Ou a olhar pela janela que fica entre mim
E a chuva na rua, poderia fechar as pálpebras
Porque a notícia sangraria nos meus olhos
Poderia estar a pisar o risco onde parou
Nos escombros de Hiroxima
A humanidade do homem, e a culpa
Seria sempre minha no silêncio dos meus lábios.

07-03-2017


©  João Tomaz Parreira

quinta-feira, 28 de março de 2013

Paixão: paixão de Cristo


por George Gonsalves
Como nomear o ato de 
curar enquanto se é ferido
doar-se apesar da traição
consolar em meio a lágrimas que insistem 
em rolar pela face triste?

Qual o nome do gesto do
Senhor que lava os pés dos servos
do Criador que se permite ser blasfemado pelas criaturas
do Santo que divide refeição com pecadores
do Altíssimo que se importa com pequeninos

Por favor, me diga como chamo o ato de  
morrer por quem o coloca numa cruz

O nome disso é Paixão:
Paixão de Cristo


domingo, 21 de agosto de 2011

ΤΕΤΕΛΕΣΤΑΙ (TETELESTAI)


“Tudo está cumprido.”
Evangelho segundo João 19:30

Para sempre se desfizeram
os equívocos dos espelhos
para sempre ficaram em branco
os velhos teares

cobriram-se de pó
as mãos que acendiam a chama
o ar mudou no coração
do eclipse

deixou de ser possível
continuar a percorrer
os extintos valados
já não são navegáveis
as águas de outrora
tornaram-se salobras
na pele

de espinhos cravados nas pupilas
sentimos escorrer pelos dedos
no suor e no sangue
o fim
o necessário fim

22/08/11

sábado, 23 de julho de 2011

CRUCIFICAÇÃO


“leaning forward against the thrust of the blades in the water, he began to row”
Ernest Hemingway, The old man and the sea
“debruçando-se contra a resistência das pás na água, começou a remar” (tradução de Jorge de Sena)


debruçado contra o impulso
em que a cabeça flui
separando-se do peito
aberto em demanda do ar

ainda o pássaro se prevê
no arco dos braços
ainda a lâmina não perfurou
a última resistência
da água no flanco

e já as mãos se debruçam
da coroa dos cravos
nesse recontro universal
que convoca o rosto húmido
e olvida os membros
lançados contra todo o corpo

o corpo que tudo desaprendeu
apenas sabe que o cortou o sangue
como os remos a água

23/07/11

terça-feira, 7 de setembro de 2010

SIMÃO DE CIRENE


“Quando o levavam, obrigaram um homem de Cirene chamado Simão, que vinha do campo, a carregar a cruz de Jesus às costas e a seguir atrás dele.”

Evangelho de Lucas 23,26 (versão A Bíblia para todos)


Simples homem da terra,

tisnado e áspero como os bois

irmãos do arado


o teu braço,

que antes se habituara

a quebrar na enxada

outro braço agora, de soldado

amante de sangue

ignorante das tuas horas

nesta hora ignaro

de demente vingança

prende e esmaga


braço por braço

ombro por ombro

sobre as tuas costas

faz poisar o peso de pena

de um condenado


abate-se a canga do céu

despojado de estrelas

a cruz toda do mundo


RUI MIGUEL DUARTE

29/08/10

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sobre o legalismo

Autossalvação

É imoral o mais moral dos seres
que um sulco reto e bem traçado
abra para si
com o arado enferrujado
das boas intenções.


De Fabiano Medeiros (2009)

terça-feira, 6 de abril de 2010

Fib-haiku


Simples pertença



teu
eu sou
por sangrento
preço, franco a mim:
não o poderia pagar


De Fabiano Medeiros (2009)
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