Mostrando postagens com marcador Poesia Inédita. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia Inédita. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de novembro de 2016

Dois inéditos, de João Tomaz Parreira



(Arte: Veronika Pinke)



PARTIDA

“Espera por mim que eu voltarei, mas tens
De esperar muito.”
 Konstantin Símonov


Agora que o cálice está próximo
E começo a ficar sem palavras
E sinto nos meus lábios a sede
Dos homens que existiram e vão
Continuar a existir, o meu cálice
A encher-se de dores e terei
De as suportar e se tornarão em
Versos de poemas, por todo o mundo
Esperem por mim.

13-11-2016
© 



VISÃO

Eu pude ver-Te a segurar o cálice
E os Teus olhos como duas escadas onde
Subiam e desciam anjos a confortar-Te
E os romanos a estender o Teu corpo
Na madeira da cruz, e o carmesim
Do sol a decompor-se de tristeza
A Tua morte
Encheria páginas e páginas
De perdão.

13-11-2016


©  João Tomaz Parreira  


quinta-feira, 26 de março de 2015

Hino à Loucura






Poema de Ricardo Mendes Rosa

Vivemos a vida de pernas para o ar,
sem ânsia de comer, de beber ou gastar.
Confiamos no ganho da providência,
procuramos morrer todos os dias
e viver eternamente.
Não vivemos pela força, nem pela arma,
procuramos ser como ovelhas simples.
Damos a cara à mão, tanto para o afago,
como para a injúria que levantam contra nós.
Somos simples na maneira de viver,
prudentes e sinceros.
Não vivemos para nós mesmos, como
quem esculpe uma imagem e se auto adora nela.
O mundo não é a nossa casa, nem a carne a nossa roupa.
A morte não é a nossa prisão, nem a doença a nossa cela.
Vivemos a vida de pernas para o ar,
na ânsia de algo que há-de acontecer.
Vivemos a vida e morremos,
na certeza de que para nós, morrer é viver.


28/02/2015

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A ODE DO PROFETA HABACUQUE




 Ainda que a figueira não perca o equilíbrio
Porque não tem figos, nem as vides mostrem o fruto
Da alegria, ainda que falhe
O azeite nas oliveiras, ainda que a vida morra
No rebanho e o silêncio ocupe o espaço dos currais
Espantar-se-á  o mundo com o meu prazer
Em Deus que fez a minha salvação
E na dádiva incrível de asas de corça nos meus pés.                                  

06-01-2015

© João Tomaz Parreira

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Poema X, [Ocupou, certa vez, o coração de David]


("Bate-seba no banho", Sebastiano-Ricci, 1679-1734)

(X)

Ocupou, certa vez, o coração de David
Rei, o desejo, pesava bastante o que seus olhos
Viam, no banho Bate-Seba,
A beleza do corpo coberta pela luz
Da seda do crepúsculo.

11-12-2014
© J.T.Parreira

in "Um pouco ao lado das Crónicas dos Reis e de Israel, em preparo)

domingo, 23 de novembro de 2014

ANTES DO SALMO 51 DAVID E NATÃ





Com uma das mãos lavo o rosto
Com a água corrente dos meus olhos
A outra apoia-se no vazio, abraça
A solidão, a sombra do silêncio
Da harpa suaviza o meu coração de pedra
Agora de carne e fogo
Um hissope começa a escrever o cântico
Do perdão a sangue e água, no espelho
Do meu rosto.


23-11-2014
© João Tomaz Parreira



sábado, 20 de setembro de 2014

UMA PALAVRA





    Estamos desprevenidos e uma palavra 
    Que parece não fazer falta, força o tumulto
    Na corrente profunda da alma, paira
    Acima do tempo, uma palavra simples
    Que começa nas franjas do sangue, Mãe
    Como Hoffmann perdido sem reflexo no espelho
    Olho-me e estou órfão
    Agora que a morte cortou o cordão umbilical.


    20-09-2014
    © João Tomaz Parreira



segunda-feira, 12 de maio de 2014

O QUE DISSE A CRIANÇA SÍRIA VÍTIMA DA GUERRA



“Quando eu morrer, vou contar tudo a Deus”
pouco serviu Lizt compor
um Rêve d’amour, ou a beleza

das macieiras entre os bosques
do Cântico dos Cânticos
direi que fui um lírio entre os espinhos

Muito pouco valeu o perfume
da noite das rosas de Damasco
para pouca coisa serviu

ter ficado em delírio a sonhar a paz
multicolor dos vestidos
das meninas que jogaram comigo

Vou contar tudo, o que valeu às nossas mães
terem o mel
nos favos dos seus dedos?

Valeu pouco,  à luz que passa
entre as sombras das palmeiras
ficar à roda do meu corpo.


11-05-2014

© João Tomaz Parreira 

sábado, 1 de março de 2014

O QUE NÃO SE DISSE

Disse quase todas
Só uma palavra é que não disse
Mas brilhava-me nos olhos

Disse quase todos
Os pronomes, só um é que não disse
Mas era uma sombra ao meu lado

No silêncio diz-se quase tudo.


28/2/2014


© João Tomaz Parreira

domingo, 26 de janeiro de 2014

O Anjo do Tanque de Betesda

O mesmo anjo descia
ou era outro
Corria na cidade

a hora improvável
da visita
Os homens informavam
as crianças buliam o pó
de tanta correria
mulheres escondiam no rosto
as emoções mais puras

Um anjo descia
era o mesmo? era outro
no vento irrequieto
sobre as águas
num gesto branco e largo
Para os absortos nada
nem para os solitários
mesmo para os confiantes
da vida sem finalidade
Só os doentes mais hábeis
entravam no torvelinho
das águas lavradas
na velocidade da luz

Um dia o anjo não veio
ou veio tarde, era o mesmo
ou seria outro? Alguém
no entanto que veio
vinha pelo seu pé
e trazia nos olhos toda
a desarrumação do mundo
e vinha com ouvidos atentos
para a hora do milagre.

© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

UM SALMO 23 DO SUL



Para a minha Mãe ( Sousel /Alto Alentejo, 3/12/1922 - )



Mesmo aqui na imensa fragrância da cor
amarelo-laranja


O Senhor é o meu pastor, rodeia-me
de felizes papoilas e do odor

A estrume fresco, e só o assobio do vento
sobre as águas cálidas já me dessedenta

Transbordam-me dos olhos as distâncias
enche-me da sua presença

O arco das minhas costas, levíssimo
com o seu olhar sobre mim

Não me persegue a surpresa da morte
durmo sob a minha sombra, num alto monte.

3/12/2013
© João Tomaz Parreira

sábado, 9 de novembro de 2013

"O amor de Cristo nos constrange"








Eu que amei com verdadeiro amor a mulher
Samaritana e aquela que partiu
E derramou o nardo puro no meu corpo e suavizou
Com os cabelos o cansaço dos meus pés

As crianças que me seguiam de longe na sua pequenez
E não cabiam nos altivos olhos das multidões
Eu que as amei com amor verdadeiro e quis salvar
Os homens dos dias implacáveis da ira
Azular corações com a profundidade dos céus
Tive que apertar nos dentes as dores
Atrozes dos cravos nas mãos e nos pés
E dos espinhos
Da coroa que me rodeou a cabeça.


9/11/2013
© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

TE DEUM




“Not because of victories
I sing”
Charles Reznikoff



Não canto por causa de victórias,
tenho tido poucas,
mas pelo brilho do sol que nasce
para todos os olhos, que pode cegar
de beleza todos por igual,
louvo por causa do que a brisa dá,
movimentos graciosos
às flores, na primavera frágil.
O meu hino não é pelas minhas vitórias
mas pelo meu dia de trabalho feito
ó Deus, até entre as ruínas.

5/10/2013
© J.T.Parreira

("Ruinas de Eldena", 1825, Caspar Friedrich)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Judas Iscariotes como costumava ser






Judas Iscariotes continua deste lado
dos nossos olhos
procura o melhor ângulo da traição
a esquina da cilada
no nosso nariz o seu olfacto
avalia o perfume dos unguentos
Judas Iscariotes continua
a sentar-se deste lado e estende as mãos
para apalpar o amor da raiz
de todos os males, e Judas continua
a usar a sua voz nocturna
para esconder o beijo mortal.

26/8/2013

© J.T.Parreira

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A Última Ceia



Bebam do meu copo antes que parta
antes que as minhas mãos
se desloquem e fiquem presas
ao silêncio da cruz, falem

à volta da mesa, encham de amor
a minha solidão, porque de todos
os vossos olhos
há um olhar que me fere mais.

22/7/2013



© J.T.Parreira

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

SALMO ALTAMENTE LEIGO



Elevo os meus olhos para os montes
lá onde os abetos se abrem
como abraços
uns para os outros


e tenho regatos a correr
ao fresco nos ouvidos, arcos de água
rápida sobre as pedras


brilha
o dia com o sol nos meus cabelos
e à noite não há vultos
porque a lua permanece de pé
no meio da escuridão
entre a linha luminosa das estrelas.


© João Tomaz Parreira

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

OS PASTORES DE BELÉM


“…Vamos beijar os pés nus
do que semeia nos céus …”
Gomes Leal, “Os Pastores”

traziam cajados e liras afiadas
nos fins de tarde
conheciam a música as rugas do campo
conheciam como o sol e as estrelas
se sucediam nas horas
e faziam sombra nos cajados
esta era a música que dedilhavam:
o som branco
tinindo na lã

na voz dos anjos uma canção nova,
um salmo ao que semeia nos céus
e cujos pés nus
acabaram de ser
colhidos da terra

Rui Miguel Duarte
27/12/12

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

EU VI UMA CRIANÇA




“Et j'ai revu l'enfant unique”
Paul Verlaine


Ela abriu meu coração para tirar a morte
lá fora os pastores aguardam a sua vez
para entrarem com os rebanhos
a manjedoura
não revela mais do que um menino
que quebra o silêncio com um rumor
de choro
que molda os tenros lábios
ela está ali, por dentro da estrebaria
e dá ternura às ruínas.

18/12/2012

 © J.T.Parreira

domingo, 21 de outubro de 2012

NO DIA EM QUE ME QUISERES



No dia em que me quiseres
carregar através da escuridão
de um dia que deve ser apenas
um segundo
No dia em que a seda em Tuas mãos
me revistam a nudez
dá-me aquele tempo- que sempre
puseste ao meu dispor – de assinar
a última data num poema.
E falaremos no caminho das palavras
que me deres.

20/10/2012
 
© J.T.Parreira

sábado, 15 de setembro de 2012

QUANDO OS TEUS OLHOS DESCEM


 (Inédito)

Teus olhos são todas as cores, brilhos
nas poeiras cósmicas, cidades
nocturnas nas galáxias, luzes no caminho
do tunel de nenhures.
Quando descem por mim.
Teus olhos são escuros, Teus olhos
são esmeraldas que os peixes respiram
Teus olhos são esculturas azuis no céu
mais próximo de mim. Para eles caminho.

15/9/2012

 © J.T.Parreira

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

SALMO 130



Como do fundo de fossas oceânicas
clamo-te, ó Deus, a minha voz
sobe à superfície do fundo das regiões 
do desespero
Sei que Tu, Senhor, não guardas na memória
os meus pecados
nas tuas mãos teces o linho
que me veste de perdão
a minha alma fia o tempo
qual Penélope desfazendo os dias
pelo amado e espera
mais do que a sentinela com os olhos
molhados pela aurora.


(de "Falando Entre Vós com Salmos -Cânticos Peregrinos 120-134" )
 
© J.T.Parreira
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...