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domingo, 24 de junho de 2018

A DÚVIDA




( Pilar do Claustro do Mosteiro de Santo Domingo, Burgos. A cena representa a dúvida do apóstolo Tomé após a ressurreição de Cristo.)



O meu corpo aceita todas as dúvidas, o meu sangue

Que foi um tecido líquido que cobriu as minhas feridas

De novo entre vós com o sinal dos cravos, metei o dedo

No lugar onde os pregos entraram até ao amago

Dos homens, escutai o meu coração

É um botão da flor do meu amor perfeito por vós

Se vos perdesse, doíam mais as minhas feridas

As dores da cruz são agora a minha maior alegria.



23/06/2018

© João Tomaz Parreira 

terça-feira, 7 de março de 2017

POEMA (Inédito)



“Were you there when they nail'd him to the cross? (Were you there?)

Tradicional cantado por Johnny Cash



Onde estava quando O crucificaram?
Poderia estar sentado à mesa
De trabalho, com a minha gata a dormir
Sob a luz do candeeiro, poderia estar
A ler um livro que me abrisse o mundo
Quando a madeira
Da cruz lhe feria os ombros de cansaço
E os cravos abriam a corrente do sangue
Ou a olhar pela janela que fica entre mim
E a chuva na rua, poderia fechar as pálpebras
Porque a notícia sangraria nos meus olhos
Poderia estar a pisar o risco onde parou
Nos escombros de Hiroxima
A humanidade do homem, e a culpa
Seria sempre minha no silêncio dos meus lábios.

07-03-2017


©  João Tomaz Parreira

domingo, 27 de novembro de 2016

POESIA DE CARLA JÚLIA



Acordei
As portas do rosto
Me traziam o mar
A imensa ausência de ser
Então as portas se fecharam
E o mar se fez em mim
Regurgitando em minhas pálpebras
Como se tivesse perdido a âncora da vida.



NOÉ

Rótulos do tempo
Tomados aos bocados por seus cabelos
Em seus olhos cabia apenas o dilúvio
Que lhe envolvia
Como pescador de lembranças.
Nas entranhas da tenda
Se desfazia dos nós da vida
Entre os cachos de vinho
Que não guardaram a nudez de sua euforia.


NO TEU SILÊNCIO

Como se o vazio se pudesse explicar
Tento eu escrever este poema
Lançando pedras no rio
Da imaginação
Para por um instante crer que estás aqui
Ou ali, estendendo o olhar em um fio de amor
Para que te veja e retorne com um riso...
Mas no final a pedra afunda
E eu continuo aqui
Tentando reescrever o poema
Que no baú da graça deixei.



© Poemas de Carla Júlia, Maputo, Moçambique
Do livro inédito "Aos Pés da Palavra"

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O REGRESSO

O Regresso

Isaías, 60,8

Vinham como pombas às suas janelas,
sem vidros
ainda o deserto esperava as laranjas de Israel
e as tâmaras nas palmeiras
como brincos.
Vieram em barcos que se lançaram à Nação
com a alegria
escondida nos porões, traziam
os corações de volta ao lar.

27-03-2015


© João Tomaz Parreira

segunda-feira, 18 de abril de 2016

PEREGRINO



“No, I have no country
except for these clouds rising as mist from lakes of poetry.”
Adonis



Não, não tenho nenhum país
excepto esta estrada que começa sempre nos meus pés
excepto  esta chuva que inunda as sombras das rosas
estas nuvens
que entre o cinzento e o branco, alternam lagos azuis no céu
a poesia da névoa de que emergem as manhãs
Não, eu não tenho mapas que estremeçam
Com o vento, abertos nas minhas mãos.
Não tenho nenhum país, nem templos
excepto esse aonde vou onde está Deus.


17-04-2016

© João Tomaz Parreira

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

ORAÇÃO FEITA PARA UM ESPELHO



(Lc 18:11-12)

Graças te dou, a Ti, que estás desse lado
porque não sou como os outros, A minha ganância
é comedida,  A minha  justiça é de pedra
Não sou adúltero, A não ser comigo mesmo
e com a minha beleza, Jejuo
para fazer compreender ao pobre que a fome
nos disciplina o corpo, Dou o dízimo de tudo
dos meus dez dedos, um
é teu e serve para apontar o erro alheio, Dos outros
não há ninguém que não seja publicano.

29-12-2015


© João Tomaz Parreira 

domingo, 29 de novembro de 2015

O PAI NOSSO


(O Angelus, Jean-Françoise Millet)


É o começo de uma bela amizade, nenhuma
outra é mais perfeita, sem impaciências
de Quem escuta com o coração.  Não sente o vão orgulho
de ter um reino, um nome sobre todo o nome
a sua vontade é o que Deus sente: Amor
assim na terra como no céu.  Pela sua mão
o pão distribuído na frescura das manhãs
sem esperar nada senão o nosso rosto
voltado para o seu, a nossa alma lavrada
pelo arado da Palavra, a nossa vida
como um fruto dos seus dedos. Ámen.   

29-11-2015

© João Tomaz Parreira


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

SALMO 150 PARA ORQUESTRA


São os dedos que louvam, procuram entre as cordas
A linha que separa o céu e a terra, um fio
De água pura que sai do sopro nas flautas.

Daí-me uma harpa doce e com ela sararei
Os ouvidos nas paredes do templo,
Um dulcimer cristalino 

Que na subtileza do som é um castelo forte, 
Para afastar os inimigos que minam a alma.
Daí-me o brilho dos olhos dos irmãos

Quando ungem os seus lábios num cântico.
Daí-me címbalos retumbantes 
Com eles racharei os muros do silêncio.


29-05-2015
© João Tomaz Parreira 

terça-feira, 26 de maio de 2015

JACOB DEPOIS DE DESCANSAR DO SONHO



Eu lembro-me bem da manhã porque as sombras
ainda não tinham nascido,
como se eu estivesse para morrer
ou tivesse um desígnio, o sonho
subiu pelas condutas do sono, como todos
até aos olhos por onde desperto foge para sempre.


A noite cheia de anjos,
anjos desceram e subiram ao interior dos céus.
Eu lembro-me bem da dureza da pedra, uma nuvem
debaixo da minha cabeça quando adormeci.


Eu sou um fugitivo para voltar depois
a esta terra onde, por entre as pedras,
das sombras se erguerá a Luz.
Esta terra que terá montes divinos
e vales não de penumbra nem de morte.


24-05-2015

© João Tomaz Parreira   

sexta-feira, 24 de abril de 2015

ELA






“E a costela que Deus tomara ao homem, transformou-a numa mulher”
Gn 2,23


Ela  tem a força das minhas costelas
E a forma do meu corpo por dentro
Ela não conheceu o barro
De onde eu vim
Ela saiu da minha concha
O seu perfume sobe e desce ainda
No meu sangue
Até que a morte cale o coração
O coração reconhece-a,  é ela
O verão no meu corpo envelhecido
Que acordou do sono, ela é agora osso
Dos meus ossos, carne da minha carne
Ela é a fonte do meu riso.

23-04-2015

©João Tomaz Parreira

quinta-feira, 2 de abril de 2015

DOIS POEMAS DO CICLO DA PAIXÃO




João Tomaz Parreira : 


PILATOS DIRIGE-SE AOS JUDEUS - IV


Eis o homem
que chegou aqui pelo valor mais baixo
que às vezes tem o beijo, o da traição
Este que chegou a golpes de chicote pelo corpo
e pelas faces em silêncio que oferecia
às bofetadas. Este que chegou aqui 
pelo crime de ser Deus
com uma cruz difícil sobre as costas.

02-04-2015
©



SALMO XXII NA CRUZ -III

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Salmo 22, 1


Coroado de sangue sem nada neste mundo
nenhum lugar agora é meu, reino
ou casa chamada de oração, nenhuma Nazaré
que amei e não me amou, agora
nem este monte do Calvário me pertence
a Cruz é a minha pátria, deixo cair sobre mim
toda a Humanidade.

01-04-2015
© 






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