em meu #peito
Demais disto, Tabitha,
há flores em Samarcanda
que nunca colheremos;
Há um funeral de três dias
no grande estado de Madhya Pradesh
que é e não é o meu.
Sammis
“Mas tu guardaste o melhor até agora!”
Evangelho segundo João 2:10
“«Antes de Filipe te chamar, quando estavas debaixo da figueira, já eu te tinha visto», respondeu-lhe Jesus.”
Evangelho de João, 1:48
À sombra da figueira busca
a raiz do Livro da Lei
à sombra da lei da árvore de Israel
medita no lume aceso pelos cordeiros
no Templo na menorah que arde
à sombra da figueira
come a trama dos dias
e conhece de cor o aroma dos frutos
pastoreia os pensamentos tange-os
das letras para longe deste campo
passeia pelo Mar que o Senhor
fez os pais atravessarem
sem que uma gota de água
lhes molhasse os pés
e põe a mão sobre a cabeça
do último egípcio que ainda respira à tona
à sombra da figueira
faz morada no salão do palácio
onde crepita a voz e o ceptro
do Rei, o Messias que o povo espera
constrói um reino e desfaz impérios
Rui Miguel Duarte
11/01/11
“Abraão lança os olhos
ao lume longínquo”
J. T. Parreira, “Contagem de estrelas”
Dissera Deus a Abraão
o pai de miríades de nações,
que contasse as estrelas
e contaria os pés
dos filhos
e dos filhos dos filhos
essas seriam as contas
amplíssimas das areias
mais do que as águas do mar
ao retirarem-se
diante das marés
dos filhos, das nações amplíssimas
do seu pai, avançando
sobre a palma da terra
e as costas dos oceanos
conquistadores dos continentes e ilhas
Abraão que contasse
que lançasse os olhos
na demora dos lumes
do céu
E Abraão contou
Abraão contou
os intervalos entre elas
Abraão contou os pêlos
da barba branca
e os intervalos
entre os cabelos
que lhe faltavam
24/12/10
“Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam. Contudo digo-vos que nem o rei Salomão, com toda a sua riqueza, se vestiu como qualquer deles.”
Evangelho de Mateus 5,28-29 (versão A Bíblia para todos)
Falo-vos da corola
dos lírios
como as fímbrias do manto
do rei
assim foram vestidos
que rei alguma vez
fia o seu próprio manto
ou precisa de apressar o olhar
para o interior de todas as montras
nos centros comerciais
em busca de trajo
em busca de um vestido de noite?
os reis vestem constante
trajo de gala
todos os seus gestos são
liturgia de fausto e cerimónia
e os lírios,
alguma vez soubestes
que precisem de estugar o passo
de se precipitar na descida
para o metro não vão os pés diferir-lhes
as horas, ou sejam devorados nos magotes
das gentes?
alguma vez ouvistes
que tecem a malha das pétalas abertas
ou a trama do seu destino
os lírios?
não elaboram o tempo
a procurar terra bastante
para as raízes
diante deles
empalidece o ouro
do manto de Salomão
mostro-vos os lírios,
que vos tocam com cores limpas
as mãos
são um pequeno sol
na largura dos campos
que vos pudesse amanhecer
o coração
Rui Miguel Duarte
9/12/10