até amanhã
já me basta o vinho de hoje
o mal de cada dia que vem a nós
só o vinho o novo e o velho
de cada hora
até amanhã
quando às estrelas
forem cortados os ventres das uvas
até amanhã
lá no meu Reino
lembrai-vos de mim
Rui Miguel Duarte
18/02/14
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
domingo, 26 de janeiro de 2014
O Anjo do Tanque de Betesda
O mesmo anjo descia
ou era outro
Corria na cidade
a hora improvável
da visita
Os homens informavam
as crianças buliam o pó
de tanta correria
mulheres escondiam no rosto
as emoções mais puras
Um anjo descia
era o mesmo? era outro
no vento irrequieto
sobre as águas
num gesto branco e largo
Para os absortos nada
nem para os solitários
mesmo para os confiantes
da vida sem finalidade
Só os doentes mais hábeis
entravam no torvelinho
das águas lavradas
na velocidade da luz
Um dia o anjo não veio
ou veio tarde, era o mesmo
ou seria outro? Alguém
no entanto que veio
vinha pelo seu pé
e trazia nos olhos toda
a desarrumação do mundo
e vinha com ouvidos atentos
para a hora do milagre.
© João Tomaz Parreira
ou era outro
Corria na cidade
a hora improvável
da visita
Os homens informavam
as crianças buliam o pó
de tanta correria
mulheres escondiam no rosto
as emoções mais puras
Um anjo descia
era o mesmo? era outro
no vento irrequieto
sobre as águas
num gesto branco e largo
Para os absortos nada
nem para os solitários
mesmo para os confiantes
da vida sem finalidade
Só os doentes mais hábeis
entravam no torvelinho
das águas lavradas
na velocidade da luz
Um dia o anjo não veio
ou veio tarde, era o mesmo
ou seria outro? Alguém
no entanto que veio
vinha pelo seu pé
e trazia nos olhos toda
a desarrumação do mundo
e vinha com ouvidos atentos
para a hora do milagre.
© João Tomaz Parreira
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
A Transfiguração
“Mas ninguém se atrevia a olhá-lo na cara,
porque era semelhante à dos anjos”
Oscar Wilde
Subiu ao monte
a luz velando o rosto e sobre a luz
e o branco dos vestidos
os discípulos se alegraram,
o vento cantava no cume da montanha,
desceu a glória de uma nuvem
e as vozes, que traziam a certeza
da morte redentora, falou-se de cicatrizes
e ouviu-se a voz de Deus, que talvez trouxesse
a neve dos cabelos envolvida em lume.
9/8/2013
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Nos jardins da Babilónia
aprendi a língua da Babilónia
a língua que falam
as árvores
da glória
aprendi como os jardins se levantam
e abraçam o zigurate
aprendi a moldar a lama
e dar-lhe a candura do rio
aprendi a língua da Babilónia
a língua que cantam
sonhos estátuas duras
de profecia
aprendi que o vinho existe
e que se degusta antes de o dia
ter espessura
que se bebe de janela aberta
só
aprendi
onde as ruas
se cruzam
com masmorras as vozes que denunciam
que o banquete dos aromas
vai começar
aprendi e depressa desaprendi
o que tem a Babilónia para eu lhe ensinar?
Rui Miguel Duarte
31/12/13
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Chegou o Menino
Veio de longe, chegou o Menino que veio de longe
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido
Chegou um menino
que deslocou o centro do céu para o mundo
Chegou de longe Deus, a carne nua
com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.
18/12/2013
do ventre da mulher. Chegou um homem
que pelo frio do estábulo gemeu
as sílabas profundas de um vagido
Chegou um menino
que deslocou o centro do céu para o mundo
Chegou de longe Deus, a carne nua
com um coração humano, igual ao meu
igual nas artérias e nas veias a qualquer judeu
e com deltas
onde o sangue desagua.
18/12/2013
© João Tomaz Parreira
domingo, 22 de dezembro de 2013
No primeiro natal
No primeiro natal
a luz não era de neon
e também não piscava,
mas, oh, como brilhava
Não tinha muita cor
mas grande era o resplendor
simplesmente porque
vinha da glória do Senhor
No primeiro natal
instrumento não se viu
nem apresentação de coral
mas cânticos sublimes fluíram
de uma milícia celestial
No primeiro natal
ninguém comprou presente
nem tampouco recebeu
mas todos foram agraciados
com Jesus, o Filho de Deus
Agora, esperamos
bençãos eternas no final
isso porque, graças a Deus,
houve o primeiro natal
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
UM SALMO 23 DO SUL
Para a minha Mãe ( Sousel /Alto Alentejo, 3/12/1922 - )
Mesmo aqui na imensa fragrância da cor
amarelo-laranja
O Senhor é o meu pastor, rodeia-me
de felizes papoilas e do odor
A estrume fresco, e só o assobio do vento
sobre as águas cálidas já me dessedenta
Transbordam-me dos olhos as distâncias
enche-me da sua presença
O arco das minhas costas, levíssimo
com o seu olhar sobre mim
Não me persegue a surpresa da morte
durmo sob a minha sombra, num alto monte.
3/12/2013
© João Tomaz Parreira
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
fragmentos
Pedaços dos que não tem pedaço
Não quero ser universal
Tolstói! dores em minha aldeia!
Há ex-meninos, ex-homens
pedaços dos que não tem pedaço
Onde nas praças há um exército
dormindo em caixas de papelão
Onde há um aviso: cuidado frágil
Não é sátira nem virtual
Sísifo global...
Feridas em minha aldeia
O trinômio hoje é outro: guerra,droga e fome
Estamos na era das chacinas
Pensamos muito... porque plantar árvore
se não vemos seus frutos?
Porque ensinar meninos se não vemos homens?
Em nossas praças tropeçamos em pedras
Estamos mumificados em nossas teorias
Seres franzinos juntam latinhas,elas
se transformam em pão,pó e pedra
Não há tempo, era da velocidade
Não se brinca, não há sorriso
Há dias que não somos capazes
Voltemos amanhã, será que haverá?
Nos falta continuidade...
Quem irá viver a sombra do que plantamos
Se é que plantamos?
Dê seu pedaço a quem não tem pedaço
Deixemos nossas redes virtuais
Precisamos pescar homens
Mesmo na ausência do mar
Ancaremos nosso barco no céu
Há vidas em nossas portas
Estamos afetados e infectados
Já dormimos por demais
Há um inverno aqui dentro
E mais frio lá fora.
Não quero ser universal
Tolstói! dores em minha aldeia!
Há ex-meninos, ex-homens
pedaços dos que não tem pedaço
Onde nas praças há um exército
dormindo em caixas de papelão
Onde há um aviso: cuidado frágil
Não é sátira nem virtual
Sísifo global...
Feridas em minha aldeia
O trinômio hoje é outro: guerra,droga e fome
Estamos na era das chacinas
Pensamos muito... porque plantar árvore
se não vemos seus frutos?
Porque ensinar meninos se não vemos homens?
Em nossas praças tropeçamos em pedras
Estamos mumificados em nossas teorias
Seres franzinos juntam latinhas,elas
se transformam em pão,pó e pedra
Não há tempo, era da velocidade
Não se brinca, não há sorriso
Há dias que não somos capazes
Voltemos amanhã, será que haverá?
Nos falta continuidade...
Quem irá viver a sombra do que plantamos
Se é que plantamos?
Dê seu pedaço a quem não tem pedaço
Deixemos nossas redes virtuais
Precisamos pescar homens
Mesmo na ausência do mar
Ancaremos nosso barco no céu
Há vidas em nossas portas
Estamos afetados e infectados
Já dormimos por demais
Há um inverno aqui dentro
E mais frio lá fora.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Pés Que Trazem Boas Notícias, poema de Elio Roldan Anderson
Como são formosos, os teus pés,
missionário, que veio me falar do Evangelho.
Mesmo com essas feridas, cicatrizes e deformações
Os teus pés são muito bonitos.
Foi maravilhoso vê-lo chegando,
dolorido, o corpo exausto,
alegria imensa,
trazendo a notícia...
- Jesus nasceu,
- Jesus morreu,
- Jesus ressuscitou.
E eu, naquele dia, ouvindo mais uma vez essa notícia,
pus-me a cismar:
Ah, eu não cria, eu não queria acreditar que Jesus,
o Cristo, é Deus,
e morreu em meu lugar.
Imaginava no coração o que eu havia aprendido
Achava que eu é quem pagaria por tudo o que havia vivido
E que não havia outro jeito, e, com tudo o que eu tinha feito...
Como é que eu iria pagar?
Imaginava que Deus fosse apenas uma força enorme,
Nunca uma pessoa; e se o fosse, como é que me veria?
Olhar para mim, me amar? Impossível, eu garantia.
E assim eu persistia, vivendo como um verme
Depois do que você me disse, eu fiquei preocupado
Ajoelhei-me, sozinho, em um banco apoiado.
E, na capela vazia, comecei a falar...
“Jesus! Se você é Deus, como me diz esta pessoa,
Eu te peço, me perdoa se não consigo acreditar”
E ali, ainda prostrado, as lágrimas a correr,
Comecei a falar de mim, e tudo eu lhe falei
Falei dos meus desacertos, e dos sonhos que vi morrer,
das tristezas, desenganos, sobre nada eu me calei
Falei do mal que fiz às pessoas, e a quantos decepcionei...
Falei da minha família, daqueles que abandonei
Jesus! Se, de fato, tu és Deus, como dizem estas pessoas
Revela-te, me toca! Renova a esperança em mim.
Eu preciso ser tocado, curado, perdoado, aceito,
Já não creio mais em mim... Só tu podes dar um jeito.
E, à medida em que falava, eu o sentia mais perto,
E de repente, todo aperto, que eu sofria, se foi
Fui inundado pelo amor que de Jesus emanava
Diante dele eu chorava...
Foi assim que o encontrei.
Tudo mudou então, e nada mais eu temia
Seu sacrifício, que envolveu tanto sofrimento,
Não foi só para aquele momento, mas foi eterno, universal.
Morreu pelo ser humano de qualquer época ou lugar,
E, mesmo tão diferentes, por Sua morte, nos tornamos iguais.
Renova tua esperança, pois existe uma saída...
Estou contigo, meu filho, você não precisa temer
Apenas creia, sossega, renovarei tua vida
Vou curar tuas feridas, você não precisa sofrer
Aquele foi o início de uma vida transformada
A esperança renovada... Agora eu já tinha a paz.
Jesus abriu os caminhos, e mostrando que me amava
Me deu o que eu precisava, e hoje eu não choro mais.
Obrigado, missionário,
Evangelista, pregador
Que Deus abençoe tua vida
E retribua tanto amor.
“Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, do que anuncia o bem, que faz ouvir a salvação, do que diz a Sião: O teu Deus reina! “
Isaías 52:7
Visite o blog do autor: http://velhopescador.blogspot.com.br/
domingo, 10 de novembro de 2013
VIA SACRA
VIA SACRA
“ …… Só vou por onde
Me levam meus próprios passos”
José Régio, “Cântico
Negro”
Há um caminho por onde
vou
e um caminho por onde não
vou
pelos olhos doces da
legião
pela inquietação segura
dos amigos
que tentam dizer que vá
por aí
não vou, por aí não vou
um rito sobre as pedras,
o meu caminho é aquele
em que os pés marcham
descalços
e se sujam, bastante tendo
por fardo
a penumbra dos homens
o caminho em que o pó é
feito de arestas
por aqui me levam os meus
passos,
quanto mais indecisos mais
firmes,
pelo húmus lamacento é que
se alevanta
o firmamento
Rui Miguel Duarte
11/11/2013
sábado, 9 de novembro de 2013
"O amor de Cristo nos constrange"
Eu que amei com verdadeiro amor a mulher
Samaritana e aquela que partiu
E derramou o nardo puro no meu corpo e suavizou
Com os cabelos o cansaço dos meus pés
As crianças que me seguiam de longe na sua pequenez
E não cabiam nos altivos olhos das multidões
Eu que as amei com amor verdadeiro e quis salvar
Os homens dos dias implacáveis da ira
Azular corações com a profundidade dos céus
Tive que apertar nos dentes as dores
Atrozes dos cravos nas mãos e nos pés
E dos espinhos
Da coroa que me rodeou a cabeça.
9/11/2013
© João Tomaz Parreira
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Sem Sentido
Uivam as cidades,gemem os homens
Serpentes ardentes voam no asfalto
Assolação da destruição!
Uivam todos,soberbos e tiranos
São horrendos nossos dias
Um bloco negro de já havia em nós
invadiram as ruas
Feito língua de sapo
Contida quando alimentada
por roupas de marcas
Exposta quando busca seu mosquito
mau por mal
Não mostram suas caras
Não é preciso
São pelos frutos que se conhece a árvore
Uivam as cidades em busca de um culpado
Os homens escondem seus rostos
"Se me ouvires comereis o melhor da terra"
Coração negro, face escondida
Black bloc, tênis negro da Nike
Não haverá mais cidades
O mal tornará estopa
Sua obra faísca
Ambas irão arder
Como fugir? para onde fugir?
Só se vence o mal com o bem
Isto é para White bloc
Dos que não escondem suas faces
Serpentes ardentes voam no asfalto
Assolação da destruição!
Uivam todos,soberbos e tiranos
São horrendos nossos dias
Um bloco negro de já havia em nós
invadiram as ruas
Feito língua de sapo
Contida quando alimentada
por roupas de marcas
Exposta quando busca seu mosquito
mau por mal
Não mostram suas caras
Não é preciso
São pelos frutos que se conhece a árvore
Uivam as cidades em busca de um culpado
Os homens escondem seus rostos
"Se me ouvires comereis o melhor da terra"
Coração negro, face escondida
Black bloc, tênis negro da Nike
Não haverá mais cidades
O mal tornará estopa
Sua obra faísca
Ambas irão arder
Como fugir? para onde fugir?
Só se vence o mal com o bem
Isto é para White bloc
Dos que não escondem suas faces
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